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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Norma Benguell canta mulheres (LP 1977)

Norma Benguell dá voz a mulheres compositoras no disco gravado em 1977
Primeiro foi a recente partida do Claudio Cavalcanti (29/09), depois Ênio Gonçalves (05/10), e agora a atriz e diretora Norma Aparecida Almeida Pinto Guimarães D'Áurea Bengell, conhecida como Norma Bengell, deixa a dramaturgia brasileira mais pobre, e em luto profundo. A morte ocorreu por volta das 3h da madrugada desta quarta-feira (8) na unidade Bambina do Hospital Rio Laranjeiras. Ela tinha 78 anos. Foi diagnosticada há cerca de seis meses de câncer no pulmão direito, e estava no Centro de Tratamento Intensivo do hospital desde o último sábado. 

Em homenagem póstuma, segue o álbum gravado em 1977, no qual só interpreta mulheres compositoras. O embrião do disco partiu pelo título e surgiu numa brincadeira na praia – cenário em que, coincidentemente, a atriz entrou para a história ao protagonizar a primeira cena de nu frontal do cinema brasileiro, aos 26 anos, no filme "Os Cafajestes", de 1962, dirigido por Ruy Guerra. “Eu estava pensando em voltar a cantar e o nome dele vai ser Norma canta mulheres”, revelou em entrevista sobre o álbum ainda na fase da produção. “As mulheres são ainda mais reprimidas e oprimidas que os homens. Elas falam coisas diferentes numa linguagem diferente. É isso que eu quero mostrar”, justificou na reportagem.

Norma Bengell nasceu no Rio de Janeiro, onde começou a se apresentar como vedete do teatro de revista aos 16 anos. O primeiro LP, "OOOOOH! Norma", viria em 1959, mesmo ano da estreia no cinema, na comédia "O homem de Sputinik", em que interpretava um símbolo sexual, numa clara analogia com a atriz Brigitte Bardot. Com o sucesso no cinema, Norma se voltou quase totalmente para a sétima arte. Em 1961, estrelou o filme "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. A exposição internacional - e a repercussão de "Os Cafajestes" - a levou a trabalhar no cinema europeu. 

Conforme a própria atriz, chegou a conhecer e namorar o ator francês Alain Delon. Fez filmes na Argentina ("Sócio de Alcova") e na Itália ("Mafioso", de 1962, e "Os Cruéis", de 1967). Com o sucesso, engatou quase um filme por ano, participando de produções que marcaram a história do cinema nacional, como "A Casa Assassinada" (1971), de Paulo Cesar Saraceni; "A Idade da Terra" (1980) , de Glauber Rocha e "Rio Babilônia" (1982), de Neville d'Almeida. Em "Noite Vazia" (1964), de Walter Hugo Khouri, interpretou uma prostituta ao lado de Odete Lara e do ator italiano Gabriele Tinti, com quem foi casada de 1963 até 1969. 

Por sempre atuar em peças e filmes alvos dos censores da ditadura militar, a atriz alegava ter sido perseguida, o que a obrigou a se exilar na França em 1971. Em 2010, a Comissão de Anistia reconheceu a atriz como anistiada política e concedeu uma reparação econômica de cerca de R$ 100 mil. Participou em 1987, ao lado do Grande Otelo e Tony Tornado, do filme "Running Out of Luck" (assista aqui), um longa do Mick Jagger baseado nas canções de seu primeiro disco solo, "She's the Boss". No clipe, (assista reportagem) Norma encarna a dona de uma fazenda produtora de bananas que escraviza o vocalista do Rolling Stones na plantação durante o dia, e o sodomiza a noite na cama. OOOOOH! Norma.

Estreou como diretora em 1988, em "Eternamente Pagu", sobre a escritora modernista. Ainda atrás das câmeras, adaptou o clássico "O Guarani", de José de Alencar, para o cinema, em 1997. Em 2005, voltaria a focar em histórias de grandes mulheres como "Infinitamente Guiomar Novaes", um documentário sobre a pianista morta em 1979, e "Magda Tagliaferro - O mundo dentro de um piano". No teatro, subiu aos palcos em 1968, sob a direção do então estreante Emilio Di Biasi em "Cordélia Brasil", primeiro texto do escritor e dramaturgo Antônio Bivar. 

Em 1976, faz "Vestido de Noiva", de Nelson Rodrigues. A atriz retornaria ao texto clássico, em 2008, com a Cia. Os Satyros, sob a direção de Rodolfo García Vázquez. Em 2007, em sua volta aos palcos, após 20 anos, teve uma crise de stress que a fez abandonar a apresentação de "O relato íntimo de Madame Shakespeare". Na época, Norma passava por um processo judicial, no qual era acusada de desviar verbas na captação de recursos para os filmes "O Guarani" e "Norma", projeto que nunca foi concluído. Sua passagem pela TV constam programas da TV Tupi e na TV Rio, como "Noite de Gala". Reapareceria apenas em 2008, com a personagem Dayse Coturno, no humorístico "Toma Lá, Dá Cá", da TV Globo. 

Seu último trabalho foi no teatro, em 2010, quando protagonizou a montagem de "Dias Felizes", de Samuel Beckett, com a direção de Emílio Di Biasi. As últimas imagens filmadas (e ainda inéditas) de Norma foram feitas pelo documentarista Silvio Tendler (“Os anos JK — Uma trajetória política”, 1980), que preparava, a quatro mãos com a atriz e cineasta, a direção de um longa-metragem sobre o cartunista J. Carlos (1884-1950). Já em montagem, para ser lançado em 2014, o filme vai se chamar “J. Carlos — O cronista do Rio” e chega às telas com os créditos de direção assinados por Tendler e por Norma, de quem partiu a ideia. Ouça agora seu canto diversificado que inclui samba, bolero e até rock da Rita Lee:

01 – Outra você não me faz
(Yvonne Lara)
02 – Inteira
(Luli – Lucinha)
03 - Em nome do amor
(Norma Benguel – Gloria Gadelha)
04 – Aprender a nadar
(Marlui Miranda)
05 – A noite do meu bem
(Dolores Duran)
06 – Abre alas
(Chiquinha Gonzaga)
07 – Coisas da vida
(Rosinha de Valença)
08 – Pra que
(Gloria Gadelha)
09 – Movimento da vida
(Sueli Costa)
10 – O futuro me absolve
(Rita Lee)
11 – Boa pergunta
(Joyce)
12 – Resposta
(Maysa)


5 comentários:

  1. http://www.4shared.com/rar/_ZyOoouO/0403_-_NBENGUELL__3_.html

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  2. Parabéns Sr. Chico, pelo excelente blog. Texto perfeito e muito informativo. Sempre atento aos fatos do cotidiano, homenageando artistas importantes da cultura popular do Brasil. Eu acompanho o seu blog diariamente, sempre com uma postagem inédita diária! Um grande serviço para a memória do nosso país.
    Continue sempre assim. Desejo saúde e felicidade. Deise Maria (Assis-SP).

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    1. Muito obrigado. São comentários como o seu que me incentivam a manter o blog. Valeu!!! Abs.

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  3. Chico, esse disco postado é de cd, ou vc ripou de vinil.

    Abs

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    1. É de vinil. Acho que não foi lançado ainda em CD. Abs.

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