Álbum duplo traz entrevista exclusiva do Dominguinhos em 11 de março de 2011
O homem que abriu a porta do apartamento no Morumbi, em São Paulo, pra me receber na manhã de 11 de março de 2011, não era exatamente como imaginava: era menor na estatura e maior na simplicidade. O seu nome é José Domingos de Moraes, nasceu em 12 de fevereiro de 1941 na cidade pernambucana de Garanhuns, e atende pelo apelido Neném. Foi ele quem me conduziu pra sentar no sofá, e só identifiquei o artista Dominguinhos na hora em que colocou o chapéu de couro na cabeça ao saber que seria fotografado. Sem o acessório, é um sujeito comum, bom de papo, e delicioso de se ouvir pelo jeito de expor suas ideias com simplicidade. Ele estava reassumindo suas atividades artísticas, e tinha agenda marcada para os primeiros ensaios, após problemas de saúde. No final de janeiro, duas semanas antes de completar 70 anos, foi internado devido a princípio de enfarte e por infecção urinária.

Lembrei-me dos detalhes desse encontro com Dominguinhos quando soube com tristeza do seu falecimento no início da noite de terça-feira, dia 23, aos 72 anos, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, após seis anos de luta contra câncer de pulmão. O meu contato com ele, naquele dia, se deve a um job que fiz para o mercado corporativo, e tínhamos entrevista agendada. Os problemas relativos à sua saúde não estavam na pauta, e achei melhor nem tocar no assunto, pois minha presença em sua casa não era pra isso. Como bom nordestino, ele me deixou a vontade, e gravei exatos 59 minutos e 13 segundos de entrevista, na qual fez retrospectiva de sua carreira desde o encontro aos oito anos com Luiz Gonzaga (na foto acima) na porta de hotel em Garanhuns. Ele, no pandeiro, mais os irmãos Morais, o mais velho, na sanfoninha de oito baixos, e Valdomiro no melê, se apresentavam a céu aberto e ganhavam trocados pro sustento da família de 16 filhos - seis morreram ainda pequeninos. Apenas o trio herdou o DNA artístico do pai Chicão. Eles começaram como "Os Três Pinguins", empresariados pela dona de um internato em Olinda, onde estudaram durante cerca de quatro anos.
No final, com entrevista dada por encerrada, mas com o gravador ligado enquanto Dominguinhos posava ainda sentado no sofá para o fotógrafo, comentei descontraidamente sobre o desfile campeão da Beija-Flor, dias antes, no carnaval do Rio, que homenageou Roberto Carlos. Muitos artistas que participaram do show “Emoções sertanejas” estavam na avenida, e a presença dele era naturalmente esperada. Nesse momento, ele toma amigavelmente a palavra, e não só confidencia o motivo que o levou a recusar o convite do Roberto Carlos pra desfilar, como também começa a falar sobre os recentes problemas de saúde. Contou espontaneamente como foi parar no hospital quando teve os primeiros sintomas do enfarte; falou sobre a infecção urinária, e fez o próprio diagnóstico quando perguntei se já estava restabelecido. "Estou bem. Posso pegar um pouco na sanfona, pelo menos, e assim vai", conformava-se.
Enfim, ao ouvir a entrevista, que já teve o uso devido e virou material de arquivo pessoal, constatei que tenho interessante documento histórico, e poderia disponibilizá-lo pra que não seja esquecido. Evitei ao máximo, em respeito aos vossos ouvidos, expor no áudio minha voz fina como a do Anderson Silva, mas me sujeito a chacota em nome da cultura, e da preservação do conteúdo, pois Dominguinhos merece. Que assim seja. A boa notícia é que só a mantive em raros momentos de necessária intervenção porque editei no formato do Programa Ensaio, onde ouvimos a resposta e desconhecemos a pergunta. A seleção musical ficou por minha conta, de acordo com as falas do Dominguinhos.
Crédito seja dado aos sites
Forró em Vinil e
Toque Musical, de onde extrai boa parte das músicas que compõem o repertório deste documento. Graças aos amigos foi possível incluir, por exemplo, a instrumental "Apanhei-te cavaquinho", dos anos 1940, pra mostrar o Luiz Gonzaga da época em que a Rádio Nacional só o queria como "acompanhador", e não o deixava cantar. Aproveitei a visita do papa Francisco neste momento no Brasil, e inclui a homenagem que Luiz Gonzaga - fundamental na vida do Dominguinhos - fez ao antecessor João Paulo II. O resultado final desta homenagem póstuma é interessante pelo conteúdo, e não pela qualidade técnica, e deve ser ouvida da primeira a última faixa pra acompanhar a sequência dos fatos. Repare que Dominguinhos até revela quem é o seu sucessor. Só descobrirá o nome quem baixar:
DISCO 1
01 - A manhã que vem (jingle da Natura)
O dia em que conheceu Luiz Gonzaga
02 - Dominguinhos e Luiz Gonzaga - Quando chega o verão
03 - Os Três Pinguins entram numa fria
04 - Luiz Gonzaga - Obrigado, João Paulo II
05 - Carne seca, água, farinha e rapadura no pau de arara
06 - Dominguinhos - Baião (Com Oswaldinho e Sivuca)
07 - Reencontro com Gonzagão
08 - Luiz Gonzaga - Sorriso Cativante – 1979
09 - Devoção a Luiz Gonzaga
Luiz Gonzaga - Apanhei-te cavaquinho
10 - O dia em que foi nomeado herdeiro artístico de Gonzagão
Luiz Gonzaga - Forró no escuro
11 - Neném virou Dominguinhos
12 - Autoditada, toca vários instrumentos
Dominguinhos - Isso aqui está muito bom - Pedras que cantam
13 - Ary Lobo - Uma prece para um homem sem Deus
14 - Motorista, propagandista e músico de Gonzagão
15 - Anastácia, uma parceria de 210 músicas - Eu só quero um xodó
16 - Dominguinhos - Asa Branca (citação - Hora do adeus) - com
Amelinha, Geraldo Azevedo, Ednardo, Anastácia e Meretrio)
DISCO 2
01 - Dominguinhos - Quem me levará sou eu
02 - Obra soma mais de 600 composições gravadas
Fagner e Luiz Gonzaga - Súplica cearense
03 – Dominguinhos e Gonzaguinha – Seja como flor
04 - A volta do acordeão
Quinteto Violado - Forró do Dominguinhos
05 - Reconhecimento a Gil
Gilberto Gil - Lamento sertanejo
06 - Reconhecimento a Gal
Gal Costa - De amor eu morrerei
07 - Pontualidade nem sempre britânica
08 - Dominguinhos - Dança da Moda - Qui nem Jiló - Fuga da Africa
(com Sivuca e Oswaldinho)
09 - Relato sobre o documentário O Milagre de Santa Luzia, de Sérgio Rozeinblit
10 - Dominguinhos - Asa branca (com Sivuca e Oswaldinho)
11 - Relato sobre os projetos inéditos
Elba Ramalho - De volta pro aconchego
12 - Relato sobre o DVD
13 - Relato sobre os projetos inéditos
Gilberto Gil - Tenho sede
14 - Waldonys - Eu sou do banco
15 - Paula Fernandes e Dominguinhos - Caminhoneiro